O que a sua maratona de série diz sobre o seu inconsciente? (Ou: Por que amamos torcer pelo vilão?)

Vamos ser honestos: quem nunca se pegou torcendo loucamente para um personagem de moral duvidosa? Pode ser aquele mafioso de Nova Jersey, o professor de química que vira traficante ou até aquela protagonista que comete erros amorosos catastróficos um atrás do outro.

Você termina o episódio, desliga a TV (provavelmente às 2h da manhã, prometendo que “só mais um” não faria mal) e pensa: “Meu Deus, eu sou uma pessoa horrível por gostar disso?”.

Calma. Respire. A psicanálise tem uma boa notícia para você: não, você não é um psicopata em potencial. Você é apenas um sujeito civilizado buscando uma válvula de escape.

O palco (ou a tela) como divã seguro

Sigmund Freud, num texto pequeno e brilhante chamado “Personagens Psicopatológicos no Palco”, nos dá a chave para entender esse fenômeno. Ele sugere que o drama (seja grego, shakespeariano ou da HBO) nos oferece algo precioso: a possibilidade de descarregar nossas emoções reprimidas sem pagar a conta no final.

A vida em sociedade exige que a gente reprima uma quantidade colossal de impulsos. O dia todo, nós somos “bons cidadãos”. Seguramos a raiva no trânsito, sorrimos para o chefe chato, pagamos boletos. Isso cansa. O nosso inconsciente, que é rebelde por natureza, fica ali, batendo na porta.

Quando você assiste a uma série, acontece o fenômeno da identificação. Por 45 minutos, você empresta o seu “Eu” para aquele personagem. Você vive as paixões proibidas, as vinganças e a rebeldia através dele. É uma experiência vicária.

Férias para o Superego

A mágica da ficção é que ela cria uma zona segura. Freud dizia que o espectador é um “coitado” que sente que tem pouca margem para viver grandes paixões na vida real sem se destruir.

Na tela, você pode explodir tudo, trair, gritar e conquistar o mundo. E o melhor: quando os créditos sobem, você não vai preso, não perde o emprego e ninguém se machuca. É como se déssemos umas férias curtas para o nosso Superego (aquele juiz interno severo que fica nos vigiando).

Então, da próxima vez que você se identificar com o vilão ou com o anti-herói, não se culpe. Seu inconsciente está apenas aproveitando um passeio seguro pelo lado selvagem. E, cá entre nós, é muito mais barato — e seguro — viver o drama na Netflix do que encená-lo na sala de estar da sua casa.

Aproveite sua série. Seu inconsciente agradece a folga.