Se você parar por cinco minutos na fila do banco ou à espera de um café, o que você faz? Provavelmente saca o celular do bolso antes mesmo de o cérebro processar o vazio. Vivemos na era da “hiperocupação”. Estar tediado virou um pecado capital, e o ócio passou a ser visto como um defeito de fabricação.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han diz que vivemos na Sociedade do Cansaço. Nós nos tornamos nossos próprios carrascos, nos cobrando produtividade até quando deveríamos estar descansando. O resultado? Um esgotamento que nem dez horas de sono resolvem.
Mas, e se eu te dissesse que o tédio é, na verdade, um artigo de luxo para a sua saúde mental?
A capacidade de não fazer nada
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott trouxe um conceito revolucionário: a “capacidade de estar só”. Para ele, um dos sinais mais claros de maturidade emocional não é saber socializar bem, mas sim conseguir ficar sozinho consigo mesmo sem sentir que o mundo está desabando ou que você precisa ser “útil” o tempo todo.
Quando preenchemos cada segundo do dia com notificações, podcasts em velocidade 2x e listas de tarefas, estamos fugindo de algo. O barulho externo serve para abafar o barulho interno — ou pior, o silêncio interno que tanto nos assusta.
O tédio como berço da criatividade
Winnicott explicava que é no vazio, nesse espaço “entre” as tarefas, que o nosso Verdadeiro Self (o nosso eu autêntico) tem chance de dar as caras. É no tédio que a mente divaga, que os desejos aparecem e que a criatividade real — aquela que não serve para bater meta — floresce.
O tédio não é um buraco negro; é um espaço de respiração.
Um desafio (quase) impossível
Minha sugestão terapêutica para hoje é radical: na próxima vez que você tiver um intervalo de dez minutos, não abra o Instagram. Não confira o e-mail. Apenas sinta o tédio. Deixe os pensamentos virem, por mais estranhos ou chatos que sejam.
Como dizia a canção dos Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Mas, para ter arte, primeiro é preciso ter espaço. Permita-se ser “inútil” por alguns instantes. Sua mente — e o seu analista — vão agradecer o respiro.